
COMUNHÃO
Muito terá que ocultar a História, dama de véus rosados, beijadora dos que vencem. Bancará a distraída ou ficará doente de fingida amnésia; mentirá que foram mansos e resignados, talvez até felizes, os escravos negros do Brasil.
Mas os amos das plantações obrigam o cozinheiro a provar na frente deles cada prato. Venenos de lenta agonia escorregam entre as delícias da mesa. Os escravos matam; e também se matam ou fogem, que são maneiras de roubar ao amo a sua principal riqueza. Ou se revoltam acreditando, dançando, cantando, que é a maneira de se redimir e ressuscitar.
O cheiro das canas cortadas embebeda o ar das plantações e ardem fogos na terra e nos peitos: o fogo tempera as lâminas, repicam os tambores. Os tambores invocam os velhos deuses, que voam até essa terra de exílio, respondendo às vozes de seus filhos perdidos, e entram neles e fazem amor com eles arrancando-lhes música e uivos, devolvendo-lhes assim, intacta, a vida quebrada.
Na Nigéria ou no Daomé, os tambores pedem fecundidade para as mulheres e as terras. Aqui, não. Aqui, as mulheres geram escravos e as terras os aniquilam. Aqui, os deuses agrários cedem o passo aos deuses guerreiros. Os tambores não pedem fecundidade, pedem vingança; Ogum, o deus do ferro, afia punhais, e não enxadas.
RETÁBULO DA BAHIA
Dizem os que mandam na Bahia que negro não vai pro Céu, nem que seja rezador, porque tem o cabelo duro, espeta Nosso Senhor. Dizem que não dorme: ronca. Que não come: engole. Que não conversa: resmunga. Que não morre: acaba. Dizem que Deus fez o branco e pintou o mulato. O negro, dizem, o Diabo o cagou.
Toda festa de negros é tida como homenagem a Satanás, negro cruel, rabo, cascos, tridente, mas os que mandam sabem que, se os escravos se divertem de vez em quando, trabalham mais, vivem mais anos e têm mais filhos. Assim como a capoeira, ritual e mortal maneira de lutar corpo a corpo, faz de conta que é uma brincadeira vistosa, também o candomblé finge que é só dança e barulho. Nunca faltam, além disso, Virgens ou santos para disfarçar: não há quem proíba Ogum quando ele vira São Jorge, cavaleiro louro, e os astutos deuses negros encontram esconderijo até nas chagas de Cristo.
Na Semana Santa dos escravos, é um justiceiro negro quem faz explodir o traidor, o Judas branco, boneco pintado de cal; e quando os escravos mostram a Virgem na procissão, é o negro São Benedito quem está no centro de todas as homenagens. A Igreja não conhece esse santo. Segundo os escravos, São Benedito foi escravo como eles, cozinheiro de um convento, e os anjos mexiam as panelas enquanto ele rezava suas preces.
Santo Antônio é o preferido dos amos. Santo Antônio ostenta galões militares, recebe soldo e é especialista em vigiar negros. Quando um escravo escapa, o amo joga o santo no canto das escórias. Santo Antônio fica em penitência, de boca para baixo, até que os cães agarrem o fugitivo.
TUA OUTRA CABEÇA, TUA OUTRA MEMÓRIA
Do relógio de sol do convento de São Francisco, uma lúgubre inscrição recorda aos caminhantes como a vida é fugaz: Cada hora que passa te fere e a última te matará.
São palavras escritas em latim. Os escravos negros da Bahia não entendem latim nem sabem ler. Da África trouxeram deuses alegres e brigões: com eles estão, com eles se vão. Quem morre, entra. Soam os tambores para que o morto não se perca e chegue à região de Oxalá. Lá na casa do criador dos criadores, espera por ele sua outra cabeça, a cabeça imortal. Todos nós temos duas cabeças e duas memórias. Uma cabeça de barro, que será pó, e outra invulnerável para sempre às mordidas do tempo e da paixão. Uma memória que a morte mata, bússola que acaba com a viagem, e outra memória, a memória coletiva, que viverá enquanto viver a aventura humana no mundo.
Quando o ar do universo se agitou e respirou pela primeira vez, e nasceu o deus dos deuses, não havia separação entre a terra e o céu. Agora parecem divorciados; mas o céu e a terra voltam a se unir cada vez que alguém morre, cada vez que alguém nasce e cada vez que alguém recebe os deuses em seu corpo palpitante.
Eduardo Galeano, sobre a Bahia de 1763
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4 Comments:
Algo repugnante: encarar outro ser humano como um pobrezinho, um coitadinho, um tadinho, um oprimido, um escravo...
Ver uma pessoa deste modo é não reconhecer sua dignidade...
Viva Zumbi!
Abaixo os intelectuais de esquerda, quase sempre branquelos com merda na cabeça, que manipulam a história para fazer um arremedo ideológico da sua "propaganda revolucionária"...
Sei bem a que tipo de "idéias" esse Eduardo Galeano é alinhado...
A intenção desse "pensador" é promover a luta de classes, o banho de sangue, o ódio, a vingânça, o rancor pelo passado, a justificativa para o morticínio...
O comunismo-anarco-contracultural deve ser tratado pelo que é: inimigo da Moral, da Cultura Superior, da Religião, dos Valores Transcendentais...
E como um inimigo do Bem ele será tratado.....
Amar os inimigos não é passar a mão na cabecinha e dar um pirulito de presente...
Essa gente tem que ser criticada com dureza, com palavrão, com rigor, porque senão ela vai julgar que suas idéias são "razoáveis", que seus "métodos" são aceitáveis, que sua indecência é muito bela...
é por amor aos maus e corruptos que devemos corrigí-los e puní-los.
Um criminoso, um terrorista (e as idéias da Esquerda são cúmplices do pior horror e terror), deve ser punido, merece ser punido... é uma exigência da Justiça e da Razão que ele receba de volta o que cometeu...
Os que não aceitarem a correção e persistirem no mal vão apanhar ainda mais... vão apanhar até aprender...
bando de otários que ignoram as Leis de Deus... não sabem que a Justição do Karma é infalível, que quem planta o mal colhe o mal?
I love you for posting Kif Kif
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Spanky
Spanky, you have great albuns at underscovered already, we only thank you
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